30.8.05

23. John Austin e as desculpas

"Em favor das desculpas" é um dos mais famosos ensaios de Austin. Abaixo você poderá ler um trecho, que traduzi para a disciplina, no qual Austin fala sobre a metodologia que emprega. Leia com calma:

"O começo do sentido, para não dizer da sabedoria, é nos darmos conta que "fazer uma ação", tal como se usa em filosofia, é uma expressão altamente abstrata - é um substituto que se usa no lugar de qualquer (ou quase qualquer) verbo com um sujeito pessoal, da mesma maneira que "coisa" é um substituto de qualquer (ou quando lembramos, quase qualquer) substantivo, e "qualidade" um substituto do adjetivo.
Da mesma forma que “real“, “livre” somente é usado para excluir a sugestão de alguma ou de todas as antíteses admitidas. Da mesma forma que “verdade” não é o nome de uma característica das asserções, assim “liberdade” não é o nome de uma característica das ações, senão que o nome de uma dimensão na qual se avaliam as ações. Ao examinar todos os modos nos quais cada ação pode não ser “livre”, isto é, os casos em que não vale dizer simplesmente “X fez A”, podemos esperar nos livrar (to dispose) do problema da Liberdade. Aristóteles frequentemente tem sido censurado por falar de desculpas (excuses) ou alegações (pleas) e passar por alto “o problema real”: no meu caso, foi quando eu comecei a ver a injustiça dessa acusação que comecei a me interessar pelas desculpas.
Há muito a ser dito em favor da opinião de que, deixando-se de lado a tradição filosófica, a Responsabilidade seria um candidato melhor para o papel aqui consignado para a Liberdade. Se a linguagem comum deve ser o nosso guia (if ordinary language is to be our guide) é para escapar de uma responsabilidade ou de uma responsabilidade plena que nós mais frequentemente pedimos desculpas, e eu mesmo usei a palavra deste modo anteriormente. Mas de fato "responsabilidade" também parece realmente adequada em todos os casos; eu não escapo da responsabilidade quando alego inabilidade (clumsiness) ou falta de tato, nem, freqüentemente, quando alego que fiz algo involuntariamente ou relutantemente, e ainda menos se eu alego que eu não tinha escolha, dadas as circunstâncias; este caso é de constrangimento e nele tenho uma desculpa (ou justificação), ainda que possa aceitar a responsabilidade. Pode ser que, então, necessitemos ao menos dois termos chave, Liberdade e Responsabilidade: a relação entre eles não é clara, e pode se esperar que a investigação das desculpas contribua para o esclarecimento.
E já é bastante, pois, no que diz respeito às formas pelas quais o estudo das desculpas pode trazer luz para a ética. Mas há também razões pelas quais se trata de um tema atrativo metodologicamente, ao menos se vamos partir da “linguagem comum”, quer dizer, do exame de o que diríamos quando (what we should say when), e também por que e o que queremos dizer (mean) com isso. Talvez este método, ao menos como um dos métodos filosóficos, dificilmente exija justificação na atualidade – é muito evidente que há ouro naquelas colinas; mais oportuno seria uma advertência acerca dos cuidados e da minuciosidade necessárias para que ele não caia em descrédito. Eu o justificarei, no entanto, muito brevemente.
Em primeiro lugar, as palavras são nossas ferramentas, e como um mínimo, deveríamos usar ferramentas limpas (clean): deveríamos saber o que queremos dizer (what we mean) e o que não, e devemos estar prevenidos contra as armadilhas que a linguagem nos arma. Em segundo lugar, as palavras não são (excepto em seu próprio pequeno canto) fatos ou coisas: precisamos, portanto, arrancá-las do mundo, mantê-las aparte e diante dele, de modo que possamos nos dar conta de suas inadequações e arbitrariedades, e possamos olhar de novo para o mundo sem viseiras. Em terceiro lugar, e o que é mais esperançoso, nosso estoque partilhado de palavras incorpora todas as distinções que os homens consideraram conveniente fazer, e as conexões que eles consideraram conveniente estabelecer, durante as vidas de muitas gerações: é de se esperar que essas sejam mais numerosas, mais razoáveis, dado que suportaram o longo teste de sobrevivência do mais apto, e mais sutis, ao menos em todos os assuntos comuns e razoavelmente práticos, que quaisquer que você ou eu plausivelmente pensasse em nossas poltronas durante uma tarde – o método alternativo mais favorecido.
Em vista da prevalência do slogan “linguagem comum”, e de nomes tais como filosofia “linguística” ou “analítica” ou “a análise da linguagem”, há algo que precisa ser destacado para evitar malentendidos. Quando examinados o que deveríamos dizer quando, quais as palavras que usaríamos em quais situações, não estamos meramente considerando as palavras (ou os “significados” o que quer que seja isso) mas também as realidades, para falar das quais usamos as palavras; estamos empregando uma percepção aguçada das palavras para aguçar nossa percepção, ainda que não como árbitros finais, dos fenômenos. Por essa razão, penso que poderia ser melhor utilizar, para esta forma de fazer filosofia, um nome menos desorientador que os dados acima – por exemplo, “fenomenologia lingüística”, só que isso seria um tanto pomposo.
Ao usar-se, pois, um tal método, é obviamente preferível investigar um campo no qual a linguagem comum é rica e sutil, como ocorre no tema urgentemente prático das Desculpas, mas não o é, digamos, no do Tempo. Ao mesmo tempo seria preferível um campo que não esteja muito cheio de atoleiros ou trilhas feitas filosofia tradicional, pois nesse caso até mesmo a “linguagem comum” terá frequentemente se contaminado com o jargão das teorias extintas, e também nossos preconceitos, como os defensores ou vítimas de opiniões teóricas, se introduzirão facilmente, e, muitas vezes de forma insensível. (...)
Sei que existem, ou sei que se supõe que existam, obstáculos na filosofia “linguística”, os quais são considerados desanimadores, por vezes não sem alegria ou consolo, por aqueles que não estão muito familiarizados com ela. Mas com os obstáculos, da mesma que com as urtigas, o que temos que fazer é dominá-los – e e saltar por cima deles. Menciono dois, em particular, com relação aos quais o estudo das desculpas pode nos ajudar a tomar coragem. O primeiro é o obstáculo (snag) da Utilização Frouxa (Loose Usage) (ou Divergente ou Alternativa); e o segundo o ponto crucial da Ultima Palavra. Todos dizemos a mesmas, e apenas as mesmas coisas nas mesmas situações? As utilizações (usages) não diferem? E porque aquilo que todos usualmente dizemos ser a única ou a melhor ou definitiva maneira de expressá-lo? Por que inclusive deveria ser verdadeiro?"

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