17.8.05

6. Ordinário ou comum?

Quero justificar minha escolha de tradução para a expressão "ordinary language philosophy", que traduzo como "filosofia da linguagem comum", diferentemente do que costuma ser feito. Alguns trabalhos de Ryle, Austin e Strawson que foram vertidos para nossa língua nos anos setenta tornaram usual a adoção de "linguagem ordinária" como tradução para "ordinary language". Um tradutor brasileiro de Austin, ao apresentar sua versão de How to do things with words, referiu-se ao autor como o principal representante da corrente conhecida como "filosofia da linguagem ordinária, filosofia lingüística ou, ainda, Escola de Oxford."; ele diz que Austin pratica o método de "análise filosófica da linguagem ordinária." O mesmo especialista escreve em um livro recente: "A filosofia analítica da linguagem desenvolveu também uma outra vertente, sobretudo entre os anos 40 e 60, que ficou conhecida como 'filosofia da linguagem ordinária'." Trata-se do Prof. Danilo Marcondes. Como se vê, surgiu e manteve-se um hábito de tradução que seria conveniente abandonar. Uma boa razão para a adoção da alternativa 'comum' pode ser encontrada no tom pejorativo de 'ordinário' em nossa língua. O Dicionário Aurélio registra onze sentidos para a expressão, dos quais cinco são pejorativos: de má qualidade, de baixa condição, medíocre, sem caráter, grosseiro. A expressão "comum", ao contrário, em sete entradas, tem apenas uma com uma certa carga negativa, que é "vulgar". O Dicionário Houaiss tem quinze entradas para "ordinário", das quais sete tem o mesmo sentido depreciativo. Assim, se optamos por "ordinário" provocamos uma considerável perda de sentido da expressão em português. Cabe lembrar que na língua inglesa não há traço pejorativo em "ordinary".

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