17.8.05

9. O Colóquio de Royaumont.

A história da Filosofia da Linguagem Comum está por ser melhor contada. Estas aulas não pretendem ser mais do que um pequeno esforço nessa direção. No caso brasileiro, como vimos no Arquivo 01, no tópico da tradução do nome do movimento, a abordagem dessa história implica lidar com alguns preconceitos que foram disseminados, geração após outra, por importantes filósofos. Isso não precisaria ter sido assim. Uma das primeiras trocas profissionais entre os filósofos da linguagem comum e os fenomenólogos continentais começou com um clima de mútua descoberta e de reconhecimento de afinidades. Refiro-me ao Colóquio de Royaumont, de 1958. Diante das atas do Colóquio, a primeira impressão é muito boa. Gilbert Ryle (1900-1976) iniciou os trabalhos dirigindo-se a uma platéia de fenomenólogos para falar sobre seu livro, O Conceito de Mente. Ele apresentou o programa do livro dizendo que, apesar de ter esse título, o livro fazia, "na realidade o exame de uma porção de conceitos mentais específicos, tais como conhecer, aprender, descobrir, imaginar, fazer parecer, esperar, desejar, sentir-se deprimido, sentir uma dor, resolver, fazer voluntariamente, fazer deliberadamente de propósito, perceber, lembrar-se e assim por diante." E acrescentou: "Poderíamos descrever o livro como um ensaio de fenomenologia...". (p. 75) Nas discussões que se seguiram à palestra de Ryle, o padre Van Breda, um representante dos fenomenólogos continentais, concordou em parte com Ryle: "Parece-me?, diz ele, "que muitos fenomenólogos praticam na Europa, na esteira de Husserl, o mesmo tipo de análise que é feita em Oxford." (p. 87) Merleau-Ponty estava lá e interveio no mesmo debate com Ryle, comparando a filosofia do oxfordiano com o seu trabalho: "Eu também tive a impressão, escutando M. Ryle, que aquilo que ele dizia não nos era totalmente estranho, e que as distâncias, se é que existem essas distâncias, é ele quem as estabeleceria, já que não as constatei, ao escutá-lo." (p. 93) Mas essas gentilezas iniciais do Colóquio de Royaumont logo cederam lugar para os estranhamentos. Van Breda, quando chegou sua vez, enfatizou as diferenças entre os dois movimentos, dizendo que a principal delas era que os fenomenólogos, ao contrário dos "analíticos", "não tem a mesma tentação, perdoe-me essa expressão, de hipostasiar a linguagem, hipostasiar a língua, hipostasiar o conceito e a palavra: é por isso que os analistas de Oxford se mostram excelentes platônicos, o que Husserl não é." (p. 87) Na discussão final, o padre Van Breda trocou essa expressão relativamente sofisticada, "hipostasiar a linguagem", por uma mais dura e direta. Ele disse que os filósofos da linguagem de Oxford ficam na linguagem. Quase sessenta anos depois, bem se conhece a força adquirida por esse jargão.

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