8.9.05

34. Argumentos da Ilusão (II)

Quem e quando começou a falar em “argumento da ilusão”, no sentido de caracterizar a forma de certos argumentos, como o de Descartes, na Primeira Meditação ou os argumentos da filosofia inferencialista da percepção defendido por alguns empiristas? Eu não sei. Mas arrisco um palpite que nessa história cabe um lugar de honra para o livro Sentido e Percepção, título que recebeu, na edição da Martins Fontes o livro de John Austin, Sense and Sensibilia, publicado em 1962, pela Oxford University Press, em uma edição organizada por G. Warnock. Austin morreu em 1960. Warnock, a partir das anotações deixadas por Austin e das notas dos alunos, organizou o livro. As anotações de Austin começaram a ser feitas para cursos que ele proferiu nos anos de 1947, 1948, 1949, 1955, 1958 e 1959. Os cursos eram dados na Inglaterra, em Oxford, com exceção das notas de 1958, elaboradas para o curso que Austin deu nos Estados Unidos, na Universidade da Califórnia, campus de Berkeley. Assim, é possível que essa expressão – “argumento da ilusão” - estivesse em curso, na Inglaterra, desde os anos 40. Todo o livro é uma discussão sobre a natureza desses argumentos.
No primeiro capítulo do livro ele batiza o bicho.

“Assim, não devemos procurar uma resposta para a pergunta “Que espécie de coisas percebemos?”. Acima de tudo, o que temos de fazer é, negativamente, livrarmo-nos de ilusões como "o argumento da ilusão". (...) Não existe uma maneira simples de livrar-se dessas ilusões - em parte porque, como veremos, não existe um “argumento” simples. Temos uma massa de falácias sedutoras (verbais, na maior parte) , e é preciso desenredá-las uma a uma e dar a conhecer uma grande variedade de motivos ocultos (...)”.

Uma certa compreensão do que pode ser o trabalho filosófico fica insinuada ainda no final do capítulo, quando ele diz que

“num certo sentido, porém, esperamos aprender algo de positivo no tocante a uma técnica para dissolver as inquietações filosóficas (algumas espécies de inquietação filosófica, e não a filosofia inteira), e, também, algo acerca dos significados de algumas palavras (“realidade”, “parece”, “tem aparência de”, etc.), as quais, além de filosoficamente muito escorregadias, são interessantes por si mesmas. Além disso, não há nada tão obviamente maçante quanto a constante repetição de asserções que não são verdadeiras, e que, às vezes, são desprovidas da mínima sensatez; se pudermos reduzir um pouco este estado de coisas, tanto melhor.”

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