14.9.05

36. As Meditações e o argumento da ilusão

Transcrevi a Primeira Meditação para indicar um caso no qual se pode identificar o argumento da ilusão, na linha em que o mesmo foi apresentado no §32. Na primeira meditação temos ao menos dois momentos centrais, sendo um a caracterização dos sentidos, no terceiro parágrafo, e a questão da possibilidade da indistinção entre o sono e a vigília, no quinto.
No primeiro caso, Austin diz que (no segundo capítulo de Sentido e Percepção) temos uma metáfora, que nem sempre é reconhecida como tal, de tão batida que é: se você diz que foi enganado pelo trocador do ônibus, pois ele devolveu menos moedas do que o devido, todos entendemos; mas o que é que entendemos quando Descartes diz que somos enganados pelos sentidos? Devemos pensar que os nossos sentidos são um certo tipo de agente, com poderes autônomos? Veja a passagem:
“Em primeiro lugar, embora a frase ‘enganados pelos sentidos’ seja metáfora corrente, não deixa de ser uma metáfora; e isto é digno de nota, pois, no que vem a seguir, a mesma metáfora é frequentemente retomada e continuada pela expressão ‘verídico’, e retomada muito a sério. Na verdade, nossos sentidos são mudos – ainda que Descartes e outros falem do ‘testemunho dos sentidos’, os sentidos não nos dizem nada de verdadeiro, nem de falso. A situação fica pior neste ponto, com a introdução não explicada de uma criação inteiramente nova, as ‘percepções dos sentidos’. Essas entidades que, sem dúvida alguma, não figuram absolutamente na linguagem do homem comum, nem fazem parte de suas crenças, trazem consigo a implicação de que, sempre que ‘percebemos’ alguma coisa, há uma entidade intermediária e sempre presente que nos informa sobre algo além dela mesma.”
Nada pode substituir a leitura de todo o capítulo. Devo lembrar, no entanto, que os autores que Austin discute são contemporâneos, que, em certo sentido, estão dentro da mesma tradição de Descartes. O livro de Austin, como já enfatizei, discute “algumas doutrinas conhecidas acerca da percepção sensível.” Ele continua. “Receio que não cheguemos ao ponto de decidir da verdade ou falsidade dessas doutrinas; na verdade, porém, essa é uma questão que não pode ser decidida, pois ocorre que todas essas teorias querem abarcar o mundo com as pernas” (p. 7) Os alvos de Austin são o livro de A. J. Ayer, Foundations of Empirical Knowledge, o livro Perception, de H. H. Price e o livro de G. J. Warnock sobre Berkeley. Esses autores, diz Austin, querem nos fornecer razões para aceitar doutrinas que remontam até Heráclito.
Que doutrina é essa? “A doutrina geral, enunciada na sua generalidade, apresenta-se assim: nós nunca vemos, ou de outro modo, percebemos (ou "sentimos"), ou, de qualquer maneira, nunca percebemos ou sentimos diretamente objetos materiais (ou coisas materiais), mas somente dados dos sentidos (ou nossas próprias idéias, impressões, sensa, percepções sensíveis, perceptos, etc). Esses são as tais das “percepções dos sentidos”.
O curioso, nessa discussão, é a gente ver que há mais de uma razão para se ver que Renato Descartes é da mesma família dos neo-positivistas: a busca de um incorrigível é o traço mais marcante dessa familiaridade. A teoria da percepção de ambos é outro.

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