14.9.05

37. Sono e vigília

No quinto parágrafo Descartes diz que não possui indícios concludentes e marcas certas que separem a vigília do sono. (Mais adiante, na Sexta Meditação, dirá que se trata de uma duvida ridícula). O que é que torna inteligível essa indistinção na Primeira Meditação? O que pode haver de comum entre o sono e a vigília para permitir que por algum momento acreditemos haver ali uma indistinção? Parece haver um certo conteúdo de experiência, que é invariável. O filósofo Arthur Danto, em seu livro Filosofia Analítica do Conhecimento, tratou longamente desse tópico. Aqui vou apenas sugerir essa leitura. Traduzo, no entanto, uma pequena passagem que dá uma pista para se pensar de que forma alguns filósofos contemporâneos pensaram a conexão entre Descartes e o neo-positivismo, no que toca ao tema da percepção.
“Descartes era obrigado a concluir, como uma conseqüência lógica de suas dúvidas, que tudo a que ele teve ou poderia ter acesso direto eram ‘idéias’, exceto, talvez, no caso de seu eu (self) (...). Ele foi levado a isso em virtude de sua afirmação (demand) de não haver uma forma interna de distinguir entre um estado de sentir e parecer (seeming) sentir. Ele respondeu a isso mediante a neutralização do conteúdo da experiência, supondo que sua relação com ela seria a mesma, de forma indiferente, nos dois casos, e assim fazendo com que a diferença fosse uma questão de correspondências externas. A entidade neutralizada, entre a qual e ele mesmo se sustentaria a mesma relação, quer se sustentasse ou não a relação externa entre ela e o Mundo Exterior, ele a chamou de ‘idéia’. Suas idéias foram então as precursoras de uma funesta prole filosófica, que foi sumindo aos poucos nos dados-dos-sentidos de recente infâmia epistemológica.” (Danto, APK, 173)

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