19.9.05

42. A busca da verdade e a prática da vida.

Eis o texto de Descartes, nas Respostas do Autor às Quintas Objeções, formuladas pelo Senhor Gassendi :
“Continuais aqui a divertir-nos com fingimentos e disfarces de retórica em lugar de nos contrapor boas e sólidas razões; pois fingis que brinco quando falo gravemente, e tomais por uma coisa dita seriamente e com alguma segurança de verdade o que propus apenas em forma de interrogação e segundo a opinião do vulgo, para fazer, a propósito disso, em seguida, uma investigação mais exata. Pois, quando disse que era preciso tomar como incertos ou mesmo como falsos todos os testemunhos que recebemos dos sentidos, disse-o seriamente; e isso é tão necessário para entender minhas Meditações, que aquele que não pode, ou não quer admitir isto, não é capaz de objetar coisa alguma que possa merecer resposta. Mas, entretanto, é preciso advertir a diferença que existe entre as ações da vida e a pesquisa da verdade, a qual inculquei tantas vezes; pois, quando se trata da conduta da vida, seria algo inteiramente ridículo não se referir aos sentidos; razão pela qual sempre foram ridicularizados aqueles céticos que negligenciavam a tal ponto todas as coisas do mundo que, para impedir que eles próprios se lançassem em precipícios, deviam ser guardados pelos seus amigos, e é por isso que disse em algum lugar: que uma pessoa de bom senso não podia duvidar seriamente dessas coisas; mas, quando se trata da pesquisa da verdade e de saber que coisas podem ser certamente conhecidas pelo espírito humano, é sem dúvida inteiramente contrário à razão não querer rejeitar seriamente estas coisas como incertas, ou mesmo também com falsas, a fim de observar que aquelas que não podem ser assim rejeitadas são, por isso mesmo, mais seguras e, quanto a nós, mais conhecidas e mais evidentes.”

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