19.9.05

43. Les actions de la vie et la recherche de la verité:

Repare que Descartes diz duas coisas: em primeiro lugar, disse falar seriamente quanto pediu para se duvidar do testemunho dos sentidos; em segundo, que temos que nos dar conta da diferença entre as ações ou a conduta da vida e a pesquisa da verdade; no segundo caso, não se duvida dessas coisas. O tema é recorrente em Descartes, como se verá nas passagens que seguem. Em todas elas Descartes se refere ao tema das relações entre a prática da vida e a busca da verdade (numero de página conforme a edição cinza dos Pensadores).
No Discurso do Método, Quarta Parte:
De há muito observara que, quanto aos costumes (pour les moeurs), é necessário às vezes seguir opiniões, que sabemos serem muito incertas, tal como se fossem indubitáveis, como já foi dito acima; mas, por desejar então ocupar-me somente com a pesquisa da verdade, pensei que era necessário agir exatamente ao contrário, e rejeitar como absolutamente falso tudo aquilo em que pudesse imaginar a menor dúvida, a fim de ver se, após isso, não restaria algo em meu crédito que fosse inteiramente indubitável.
Em Princípios da Filosofia, Artigos 1 a 6, Da Dúvida:
Art. 3 - Que não devemos, de modo algum, usar desta dúvida para a orientação de nossas ações.
Convém, entretanto, notar que de modo nenhum entendo eu que nos sirvamos de forma tão geral de duvidar, a não ser quando começarmos a aplicar-nos à contemplação da verdade. Pois certo é que, em tudo aquilo que respeita à orientação da nossa vida, nos achamos, muitas vezes, forçados a seguir opiniões apenas verossímeis, dado que as ocasiões de agir nos negócios se escoariam quase sempre antes de nos libertamos de todas as dúvidas.
No Resumo das Seis Meditações seguintes (p.81):
Mas entretanto é de notar que não trato de modo algum, neste lugar, do pecado, isto é, do erro que se comete na busca do bem e do mal, mas somente daquele que sobrevém no julgamento e no discernimento do verdadeiro e do falso; e que não pretendo falar aí das coisas que competem à fé ou à conduta da vida, mas somente daquelas que dizem respeito às verdades especulativas e conhecidas por meio da tão só luz natural.
E, finalmente, apresento todas as razões das quais é possível concluir a existência das coisas materiais: não que as julgue muito úteis para provar o que elas provam, a saber, que há um mundo, que os homens tem corpos e outras coisas semelhantes, que nunca foram postas em dúvida por homem algum de bom senso;
Na Primeira Meditação (p. 88):
Pois estou seguro de que, apesar disso, não pode haver perigo nem erro nesta via e de que não poderia hoje aceder demasiado à minha desconfiança, posto que não se trata no momento de agir, mas somente de meditar e de conhecer.
Nas Respostas do Autor às Segundas Objeções recolhidas de muitos teólogos e filósofos pelo R. P. Mersenne (p. 163)
De resto, peço-vos aqui que lembreis de que, no tocante às coisas que a vontade pode abranger, sempre estabeleci grande distinção entre a prática da vida e a contemplação da verdade. Pois, no que concerne à prática da vida, tanto faz que eu pense ser preciso seguir apenas as coisas que conhecemos mui claramente, como, ao contrário, que eu sustente que nem sempre se deve contar com o mais verossímil, sendo preciso algumas vezes, entre muitas coisas completamente desconhecidas e incertas, escolher uma e se lhe apegar, e em seguida crer nela não menos firmemente, enquanto não virmos razões em contrário, do que se a tivéssemos escolhido por razões certas e mui evidentes, como já expliquei no Discurso do Método. Mas, onde se trata tão-somente da contemplação da verdade, quem jamais negou que é preciso suspender o julgamento em relação às coisas obscuras e que não sejam assaz distintamente conhecidas? Ora, que em minhas Meditações só se verifica essa contemplação da verdade, além de se reconhecer este fato bastante claramente por elas próprias, eu o declarei em palavras expressas no fim da Primeira, ao dizer que nunca seria demais duvidar, nem haveria demasiada desconfiança naquele ponto, tanto mais que não me aplicava então às coisas concernentes à prática da vida, mas apenas à busca da verdade.

0 Comments:

Post a Comment

<< Home

ISP
ISP