21.9.05

46. O uso de exemplos na filosofia: Burnyeat, Sócrates e o Livro Azul

O artigo de Miles Burnyeat “Exemplos na Epistemologia: Sócrates, Teeteto e G. E. Moore”, de 1977, nos oferece uma relação entre alguns dos temas que estamos tratando na disciplina, e nos ajuda a chegar mais perto dos problemas metodológicos da Filosofia da Linguagem Comum.
No início do Teeteto, Sócrates pergunta o que é o conhecimento. Teeteto oferece exemplos: geometria, matemática, certos artesanatos. Sócrates ironiza a resposta, dizendo que enumerar tipos e casos não ajuda, pois o que ele busca é saber o que é o conhecimento em si mesmo, um conceito de conhecimento. Essa mesma reação de Sócrates pode ser encontrada no Lachés (190e), no Eutifron (5de), no Menon (71e). Essas passagens – que podem ser vistas como indeferidoras do uso de exemplos nas análises filosóficas - são muito importantes, do ponto de vista do debate sobre a metodologia filosófica de Platão, e, certamente, para além dele.
A pergunta central de Burnyeat é essa: “Por que Sócrates habitualmente sustenta que os exemplos (...) dão o tipo errado de resposta para perguntas com a forma ‘o que é a coragem?’, ‘o que é o conhecimento?’, e assim por diante?”
Um dos filósofos que enfrentou esse tema foi Peter Geach (1919-). Geach sustenta que Sócrates faz duas suposições:
“Vamos nos concentrar em duas suposições que Sócrates faz: (A) que se você sabe que está usando corretamente como predicado um dado termo T você deve saber em que consiste ser T, no sentido de ser capaz de oferecer um critério geral para uma coisa ser T; (B) em conseqüência disso não resolve nada tentar chegar ao significado de T dando exemplos de coisas que são T. (B) de fato é uma conseqüência de (A). Se você já pode oferecer uma elucidação do que T significa, então você não precisa precisa de exemplos para chegar ao significado de T; se, por outro lado, você não tem essa elucidação geral, então, pela suposição (A), você não pode saber se qualquer exemplo de coisas que são T são genuínas, pois você não sabe quando é que está predicando T corretamente.”
(Este texto de Peter Geach está publicado no livro Logic Matters, e se chama “O Eutifron de Platão: uma análise e comentário”.
Falta agora apresentar a falácia de Sócrates e o que isso tem a ver com Wittgenstein.

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