28.9.05

48. Burnyeat, Sócrates, Wittgenstein: o papel dos exemplos na filosofia.

Burnyeat escreve que as críticas de Peter Geach tem algo em comum com uma passagem do Livro Azul, na qual Wittgenstein faz uma menção ao Teeteto:
“A idéia de que para tornar claro o significado de um termo geral teríamos que descobrir o elemento comum a todas as suas aplicações estorvou a investigação filosófica não só porque não conduziu a qualquer resultado, mas também porque levou a que os filósofos rejeitassem como irrelevantes os casos concretos, os únicos que poderiam tê-los ajudado a compreender o uso do termo geral. Quando Sócrates faz a pergunta, “o que é o conhecimento?” ele nem sequer considera como uma resposta preliminar a enumeração de casos de conhecimento.”
Wittgenstein, o filósofo que leva a fama de levar em pouca conta a história da filosofia, aponta o dedo exatamente para esse importante livro de Platão e para essa delicada questão. E esse é o comentário de Burnyeat:
“A objeção de Wittgenstein pode ser ainda mais radical, no entanto, pois podemos entender que ele quer dizer que é um equívoco pensar que existe uma coisa como a essência do conhecimento, acima e abaixo dos exemplos, se por essência se quer dizer um conjunto de características comuns que poderiam ser formuladas em uma definição que aponta as condições necessárias e suficientes para qualquer coisa ser considerada como conhecimento. Nessa interpretação, o que Wittgenstein alega é que a lista de exemplos de Teeteto é uma resposta para a pergunta de Sócrates, uma resposta do único tipo que pode haver. Esta é uma posição extrema, e a proposição existencial negativa “Não há uma definição de conhecimento a ser descoberta” dificilmente pode ser estabelecida conclusivamente, muito embora ela possa ser recomendada como a moral que deveríamos retirar do fracasso do diálogo em encontrar uma definição adequada de conhecimento. Os argumentos de Geach não sugerem tal hostilidade à tarefa socrática de encontrar definições, apenas ao modo de Sócrates lidar com exemplos. Mas as duas críticas levantam profundos temas sobre o papel dos exemplos na filosofia.”
(As passagens de Burnyeat são do artigo “Examples in Epistemology”, citado anteriormente)

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