28.9.05

49. “Metafísica e cotidiano”

No Dicionário Wittgenstein (Hans-Johan Glock, Jorge Zahar Editor, 1997) não há o verbete “Metafísica”. A expressão, no entanto, é usada por Wittgenstein, tanto no Tractatus quanto nas Investigações.
No Tractatus, em 6.53: “O método correto da filosofia seria propriamente este: nada dizer, senão o que se pode dizer; portanto, proposições da ciência natural – portanto algo que nada tem a ver com filosofia; e então, sempre que alguém pretendesse dizer algo de metafísico, mostrar-lhe que não conferiu significado a certos sinais em suas proposições. Esse método seria, para ele, insatisfatório – não teria a sensação de que lhe estivéssemos ensinando filosofia; mas esse seria o único rigorosamente correto”.
Nas Investigações, em dois momentos, no parágrafo 58 e no 116. Para nossos objetivos, a passagem relevante é a segunda: “Quando os filósofos usam uma palavra – “saber”, “ser”, “objeto”, “eu”, “proposição”, “nome” – e procuram apreender a essência da coisa, deve-se sempre perguntar: essa palavra é usada de fato desse modo na língua em que ela existe? Nós reconduzimos as palavras do seu emprego metafísico para seu emprego cotidiano.”
No Livro Azul a expressão “metafísica” é bem mais usada e discutida. Na primeira passagem que transcrevo Wittgenstein fala sobre o que considera a “fonte da metafísica”: “o nosso desejo de generalidade tem uma outra fonte importante: a nossa preocupação com o método da ciência. Refiro-me ao método de reduzir a explicação dos fenômenos naturais ao menor numero possível de leis naturais primitivas e, na matemática, de unificação dos diferentes tópicos por meio de uma generalização. Os filósofos tem sempre presente o método da ciência e são irresistivelmente tentados a levantar questões e a responderem-lhes do mesmo modo que a ciência. Esta tendência é a verdadeira fonte da metafísica, e leva o filósofo a total obscuridade.”
Mais adiante, ele apresenta uma caraterização da metafísica que ajuda a compreender em que consiste o “emprego metafísico” de uma expressão; ele consiste em apresentar uma incerteza gramatical como se fosse um problema científico. Veja o texto: “Voltemos a nossa questão: “Qual é o objeto de um pensamento?” (por exemplo, quando dizemos, “Penso que a Faculdade Real está incendiando”). A questão tal como a apresentamos já é a expressão de várias confusões. Isto é revelado pelo simples fato dela quase nos soar como se fosse uma questão da física; como se perguntasse: “Quais são os elementos básicos constituintes da matéria?” (É uma questão tipicamente metafísica, sendo a sua característica a de que exprimimos uma incerteza sobre a gramática sob a forma de um problema científico.)
Na segunda parte do Livro Azul Wittgenstein oferece alguns exemplos disso; um enunciado metafísico é, por exemplo, “os dados dos sentidos de um homem são privados”; quem diz isso pode pensar que diz “uma espécie de verdade científica”; outro exemplo seria “Não posso sentir a dor dele”.

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