6.10.05

55. Como procurar o que não conhecemos?

Há que tome Platão ao pé da letra e veja em seus textos uma defesa pura e simples da imortalidade e da transmigração das almas, como uma tese empírica. Ao menos um filósofo ofereceu uma visão deflacionista desses tópicos platônicos. Trata-se de R. M. Hare (1919-2002), no artigo Philosophical Discoveries, publicado em 1960, na revista Mind e mais tarde republicado em seu livro Essays On Philosophical Method (UCLA, 1972). O artigo de Hare é longo e diz respeito à natureza dos enunciados filosóficos, um tema interminável: quais são os métodos de investigação da filosofia? E que tipo de enunciado resulta daí (pense nas alternativas da tradição: analíticos ou sintéticos, etc)? O filósofo descobre, inventa, ou o quê? Em quais sentidos a investigação filosófica pode ser comparada com as formas de investigação cientificas? O que é que faz com que um livro de filosofia não seja apenas um livro de sabedoria? Como disse certa feita o professor Ernildo Stein, aqui no Curso de Filosofia da UFSM (por volta de 1983), “o que é que faz com que Ser e Tempo não seja apenas uma coleção de frases piedosas?” (Ele poderia ter citado qualquer outro livro de filosofia e, em lugar de piedosas, poderia ter dito “engenhosas”, “sábias”, etc.).
O que Hare oferece é uma versão demitologizada da doutrina da anamnese em Platão. Platão diz que descobrir a definição de um conceito é como lembrar ou evocar. O lugar argumentativo da teoria da reminiscência no Mênon é problemático. A teoria da reminiscência ocorre em um momento crítico do diálogo, como solução para um problema muito grave levantado por Mênon. Sócrates diz que não sabe o que é a virtude. Diante disso Mênon lhe pergunta como podemos procurar por uma coisa que não sabemos o que é, como podemos procurar um objeto que desconhecemos. Como saber que o encontramos, se ele aparecer na nossa frente, já que não o conhecemos? Se não houver uma boa solução para esse paradoxo, a filosofia fica em risco: ela nem pode começar e nem pode concluir.
A saída para esse “árduo problema”, como diz Sócrates (“o homem não pode procurar o que sabe, nem o que não sabe. O que sabe, não precisa procurar, porque sabe; e o que não sabe, não pode procurar, porque não sabe o que deve procurar”) está em um mito, narrado por homens e mulheres sábios em “coisas divinas, verdadeiras e belas”. Esses sábios dizem que a alma do homem é imortal e reaparece em novas existências. Ela contemplou as coisas existentes, nessas tantas vidas, “e por isso não há nada que não conheça . Não é de espantar que ela seja capaz de evocar à memória a lembrança de objetos que viu anteriormente...”

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