6.10.05

56. Demitologizando o Mênon.

Chegar até a correta caracterização de um conceito, na forma como é sugerido pelo Mênon, consiste em uma forma de lembrança, evocação, ou reminiscência, que nem sempre é feita com facilidade. Um dos encaminhamentos para o paradoxo do Mênon, como se sabe, consiste no enriquecimento de nossa compreensão do funcionamento do conceito de “saber” ou “conhecer”. O paradoxo surge a partir de uma indistinção entre saber como fazer algo e saber que algo é assim e assim. Apenas o segundo saber é de natureza proposicional. Hare faz uma comparação com a dança, do tipo quadrilha, que podemos muito bem saber dançar, mas não sabemos dizer como ela é dançada. O mesmo pode ocorrer com a tarefa filosófica de análise de conceitos. “Podemos saber como usar uma certa expressão, mas não somos capazes de dizer como ela é usada”. (Hare, p. 36). O que Sócrates faz com o escravo, a seguir, na célebre cena do interrogatório, é algo relativamente trivial. Ele apela para a memória do escravo, sem duvida, mas apenas para a memória atual, que o escravo tem desta vida. Repare na condição que Sócrates impõe à Menon na hora da escolha do escravo, que pode ser “qualquer um que queiras, a fim de que por meio dele eu possa fazer a demonstração que pedes.” Antes de se dirigir ao escravo, Sócrates pergunta a Menon: “Ele é grego e fala grego?” “Sim”, diz Menon, nasceu em minha casa”. Nesse ponto começa o interrogatório, centrado na geometria, e que apela exclusivamente para deduções que podem ser feitas a partir de uma figura, por análise de conceitos. Certas descobertas filosóficas de fato tem tudo a ver com certas lembranças. Em especial, de tudo o que sabemos sobre nossa língua nativa.

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