12.10.05

62. O açougue da razão

Logo depois de lamentar as ilusões da pobre pomba, Kant investe contra os pomadistas. “Na especulação é, contudo, um destino habitual da razão humana concluir o quanto antes seu edifício e apenas depois investigar se também seu fundamento está bem assentado.” O especulador tem poucos escrúpulos, e usa todo tipo de desculpa para não fazer tal exame e acreditar na solidez de sua pequena aventura conceitual (B9). Se queremos evitar a suspeita de fazer especulações descabidas, o início da sabedoria é um certo tipo de humilde autoconhecimento: precisamos nos dar conta que possuímos já conceitos sobre objetos e que os usamos:
“A ocupação da razão consiste, em grande e talvez na maior parte, em desmembramentos de conceitos que já temos de objetos. Isso nos proporciona uma porção de conhecimentos que, embora não passem de esclarecimentos ou elucidações daquilo que já foi pensado (embora de modo confuso) em nossos conceitos, são pelo menos quanto à forma tidos na mesma conta que conhecimentos novos, não obstante não ampliarem, mas só analisarem os conceitos que possuímos quanto à sua matéria ou conteúdo”.
Desse açougue da razão (pois “desmembrar” é uma metáfora de carniceiros) pode sair coisa boa e coisa ruim, no entanto. Será preciso encontrar critérios para essas “análises”. O próximo passo de Kant, na CRP, é explicar melhor esse novo conceito, expresso nas palavras “desmembramento”, “análise”, “esclarecimento”, “elucidação”.

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