20.10.05

72. Ryle: usos e costumes

Na terceira seção, Ryle lembra uma inconveniência: uso não quer dizer, nesse contexto, utilidade, como “serventia”.
Na quarta seção, Ryle lembra outra confusão possível, entre uso como “modo de operar” e uso como “costume” (pratica, moda ou voga). Um modo de operar implica em algum tipo de habilidade, técnica ou método, e um costume ou moda é uma prática social: são coisas bem diferentes, pois não há “moda errada”, mas há mau uso técnico, por exemplo. O objetivo dessa seção é enfrentar o mesmo problema tratado por Searle, a saber, a natureza dessas observações sobre o uso de expressões: “os métodos para descobrir usos lingüísticos são os métodos dos filósofos”. Operar com objetos (e com palavras) é aprender como fazer algo. Aprender a usar um bumerangue é algo logicamente diferente de aprender informações sociológicas sobre práticas com bumerangues. Quando uma criança faz o aprendizado do uso da moeda corrente de seu país, isso não inclui, por irrelevância, a realização de estudos históricos ou sociológicos sobre o comportamento de outros usuários do sistema monetário. O parágrafo no qual Ryle apresenta esse tema termina com uma frase que depois lhe valerá uma feroz crítica: ‘No quarto de brinquedos nós aprendemos como manipular um grande numero de palavras, mas não nos ensinam, para isso, quaisquer generalidades históricas ou sociológicas relativas aos usuários dessas palavras.” John Passmore, em 1954, criticará esse artigo de forma duríssima, debochando da “babá de Ryle”. Veja adiante.
Ainda na quarta seção do artigo, Ryle faz uma distinção relevante para seus propósitos, no que diz respeito ao conceito de uso. Ele nos convida a fazer dois grupos: uso de remos, raquetes de tênis, de um lado, e de outro selos de correio, alfinetes de segurança, moedas e palavras. O segundo grupo de usos mal comporta a idéia de habilidade: “moedas, cheques, selos, palavras isoladas, botões e cordões de sapato são coisas que não oferecem praticamente nenhum campo para o talento”. (p. 50) Um campeão de xadrez não conhece o movimento autorizados das peças melhor do que um amador. Um bancário experimentado não dá o troco melhor do que a caixeira debutante: ambos dão o troco certo ou não. Diante dessas comparações Ryle tira uma conclusão:
“Os filósofos tentaram, muitas vezes, descrever a maneira ou o modo canônico (...) de empregar uma expressão. Algumas vezes, tal expressão pertence ao vernáculo; outras vezes, ela faz parte de um vocabulário técnico e, algumas ela não pertence nem a um nem a outro. Descrever o modo de emprego de uma expressão não exige e, de hábito, não encontra auxílio em informações a respeito da predominância ou não dessa maneira de empregá-la. Como muitas outras pessoas, o filósofo, com efeito, há muito aprendeu como empregá-la ou como manipulá-la, e o que ele está tentando descrever é exatamente aquilo que ele próprio aprendeu.” (51)
Os conceitos que ele vai explorar na seqüência desse parágrafo giram em torno do aprendizado da língua materna. Somos membros de uma comunidade lingüística, e desejamos compreender e ser compreendidos; ao invés de um apelo a qualquer tipo de predominância, o que o filosofo pretende é “a extração das regras lógicas que governam implicitamente um conceito, isto é, um modo de operar com uma expressão. (...) Análise de função não é observação da maioria”. (p. 51)
O resto da seção discute a diferença entre uso de palavras e uso de sentenças.

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