26.10.05

75. Cavell: aprendemos as palavras em certos contextos

Nessa frase de Ryle (p. 53) podemos identificar um tema wittgensteiniano que provavelmente surgiu no Livro Azul, e que foi retomado na filosofia contemporânea por autores como Stanley Cavell e John McDowell. No Livro Azul a passagem está na página 9 (da edição da Blakwell) e é essa: “Sei o que uma palavra significa em certos contextos.” Vejamos a passagem de Cavell, em um contexto ampliado:
“Ao falar sobre a visão de linguagem que subjaz aos procedimentos a partir da linguagem comum em filosofia, eu tinha em mente algo que eu havia sugerido ao discutir a relação que Wittgenstein faz da gramática e de critérios à ‘formas de vida’, e ao enfatizar o sentido no qual a convenção humana não é arbitrária mas sim constitutiva da fala e da atividade significante; na qual a mútua compreensão, e portanto a linguagem, depende de nada mais e nada menos do que de formas de vida compartilhadas, chamemos isso de nossa mútua sintonia ou acordo em nossos critérios. Eu disse tanto que os critérios são aparentemente necessários para o nosso conhecimento da existência ou realidade, e que eles podem ser, aparentemente sem necessidade, repudiados. Expressei isso dizendo que normalmente a presença de critérios (o fato que nós dizemos, na verdade, “aquilo é o que nós chamamos ‘raiva suprimida/supressing anger’”) assegurará a existência de seu objeto (ele está lá sentindo raiva), mas não inevitavelmente (dedutivamente), e sugeri que isto significa não que normalmente (usualmente) uma afirmação feita com base em um critério é verdadeira, mas que ela é verdadeira para os habitantes normais de nosso mundo, de qualquer coisa que reconheçamos como parte do nosso mundo.”
“Agora eu quero dizer algo mais especifico sobre o que é que Wittgenstein descobriu, ou detalhou, sobre linguagem (isto é, sobre o inteiro corpo e espírito da conduta e do sentimento humano que vão junto na capacidade da fala) que levanta o tipo de problemas que eu caracterizei tão cruamente e vagamente em termos de ‘normalidade’ e ‘nosso mundo’.”
“O que eu gostaria de dizer nesse ponto pode ser tomado como sendo uma glosa da observação de Wittgenstein que “nós aprendemos as palavras em certos contextos” (por exemplo, Livro Azul, p. 9). Isto quer dizer, assim penso, tanto que nós não aprendemos as palavras em todos os contextos nos quais elas poderiam ser usadas (o que, no final das contas, isso significaria?) e que nem todo contexto no qual uma palavra é tal que nele a palavra pode ser aprendida (por exemplo, contextos nos quais a palavra é usada metaforicamente). E em seguida espera-se que saibamos quando as palavras são usadas apropriadamente em contextos posteriores.”

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