20.10.05

75. John Passmore e a crítica a Ryle

No ano seguinte, (1954) John Passmore publicou uma dura crítica aos argumentos de Ryle em favor da filosofia da linguagem comum. No artigo intitulado “Professor Ryle’s Use of ‘Use’ and ‘Usage’” (publicado na Philosophical Review), Passmore provavelmente inaugurou o uso do rótulo “ordinary-language philosopher”. Ele usou essa expressão três vezes para se referir ao tipo de filósofo exemplificado por Ryle. Passmore aproveitou o fato de Ryle não mencionar exemplos da ocorrência da alegada indistinção entre utilização e uso e centrou sua censura ao “amadorismo filológico” do filósofo Ryle, que teria fracassado na tarefa de mostrar que a investigação de utilizações (uses) é outra coisa do que estudar usos (usages): “O que eu gostaria de sugerir é que (...) investigar utilizações é estudar usos.” Ryle, diz Passmore, está tirando um “feriado filológico”. Veja o texto de Passmore: “Estou certo que na verdade ele está filologizando, e de uma forma amadoristicamente inadequada; se eu puder mostrar isso bem, isso vai sugerir que os filósofos da linguagem comum pelo menos algumas vezes, mesmo que em momentos de descontração, dedicam-se à filologia e deveriam fazer isso com considerações mais cautelosas em relação às evidências.”
Passmore fez diversas objeções com base em dicionários e gramáticas de inglês, procurando mostrar provar que Ryle foi descuidado com o uso de expressões como “sinônimo”, “uso”, “utilização”, “em contraste”, ou que fez afirmações lingüisticamente errôneas. Ryle afirmou: “Não pode haver um uso errôneo (misusage), da mesma forma como não pode haver um costume errôneo (miscustom) ou uma voga errônea (misvogue).” Usos (usages) são costumes, práticas, modas ou vogas e certamente são passíveis de avaliação de fundo moral: podem ser condenáveis ou impróprios. Mas o fato de serem condenáveis é compatível com a ocorrência dos mesmos, e é nesse sentido que não há um “uso errôneo”. Ryle fez essa afirmação para argumentar que quando operamos com expressões aprendemos uma técnica, uma habilidade, um método, e aprender isso é aprender como fazer algo, e não ter lições sobre generalidades sociológicas. Passmore, diante dessa discussão, lembra uma passagem de Edgar Allan Poe na qual o poeta fala sobre “the misusage of ‘like’ for ‘as’”, para provar o erro de Ryle, concluindo, com base nisso, que a expressão em pauta, misusage, pode ser pouco usual, mas não é desconhecida.
O ponto central da crítica de Passmore consiste em mostrar que a distinção tão importante para Ryle, entre utilização (use) como um modo de operar com algo, e uso (usage) como uma prática mais ou menos predominante de fazer algo, não faz sentido. E o argumento mais importante em seu ataque consiste em dizer que somente podemos falar de técnicas ou habilidades bem executadas depois que investigarmos as execuções dessas habilidades: “... para descobrir se uma pessoa “sabe como usar a palavra ‘sinônimo’”, teremos que nos perguntar se ela se conforma à prática das pessoas que, em nossa opinião, falam “bom Inglês”, o que implica que em primeiro lugar nós investigamos o uso e então o comparamos com os “modos de operar” dessa pessoa particular.”
É importante seguir o raciocínio de Passmore nesse ponto. Na frase que se segue ele afirma que Ryle quer evitar essa conclusão que ele, Passmore, tirou. Isso envolve a aprovação, por parte de Passmore, de uma afirmação de Ryle sobre aprendizagem: aprender é “aprender como fazer a coisa e não descobrir quaisquer generalidades sociológicas, nem mesmo certas generalidades sociológicas referentes a outras pessoas que fazem coisas similares ou diferentes (...).” Passmore diz que pode concordar com essa afirmação pois “nós podemos adotar um uso – nos conformar a ele – sem que sejamos capazes de descrevê-lo.” E desde que o “ordinary language philosopher” não quer apenas usar as palavras, ele quer ser capaz de falar sobre elas, de que forma ele pode fazer isso sem examinar os usos?
As observações de Passmore nesse ponto precisam ser examinadas com cuidado e na presença daquilo que Ryle escreveu sobre o aprendizado da língua materna ao longo de todo o artigo. Ele começou com uma crítica aos seus interlocutores-filósofos, que “mostram tanto empenho em pretender que não conseguem conceber qual é a utilização canônica da expressão, dificuldade essa que eles esquecem totalmente, é claro, quando estão ensinando a crianças ou a estrangeiros como utilizar a expressão em questão (...).” A seguir e em diversas passagens do artigo, passou a apresentar uma espécie de pragmatismo lingüístico. Podemos assim caracterizar sua posição pois ele defende que o aprendizado de linguagem é aprendizado de procedimentos e técnicas em contextos definidos e que o domínio das expressões lingüísticas não envolve nenhum tipo de expedição platônica em busca de entidades que correspondam ao significado da expressão: “Aprender a utilizar expressões envolve (...) aprender a fazer com elas certas coisas e não outras, envolve aprender quando fazer certas coisas com elas e quando não fazê-las. Dentre as coisas que aprendemos no processo de aprender a utilizar expressões lingüísticas, encontramos algo que poderíamos vagamente chamar de ‘regras de lógica’; (...)”. Por outro lado, há aprendizados que “inevitavelmente” envolvem “transações interpessoais” sem que esse envolvimento implique que o aprendente esteja fazendo observações de natureza sociológica de outras condutas. Quais seriam, por exemplo, as observações sociológicas correspondentes às ‘regras da lógica’ que aprendemos quando nos damos conta que “embora papai e mamãe possam ambos ser altos, não podem ambos ser mais altos um do que o outro”? Tal pragmatismo lingüístico pode ser avaliado principalmente cuidado com a caracterização de relações necessárias entre o aprendizado da língua e as ocasiões e contextos de aprendizado. Prestemos atenção nessa passagem: “Aprendi a utilizar corretamente a palavra em questão numa variedade ilimitada de diferentes contextos.”
Diante de afirmações como essa, Passmore faz um comentário irônico que pode ser visto hoje como um sintoma das reações que a nova “filosofia da linguagem comum” despertava. Depois de concordar que o filósofo pode conhecer “o uso “canônico” de uma expressão – e isso como o resultado de um “certo número de processos corretivos saudáveis ‘na creche’ e em estágios ulteriores de sua educação”, Passmore diz que isso somente pode ser verdadeiro para os usos das palavras em seus contextos mais comum”:. A “babá de Ryle” não estava advertida da existência de um termo como “misusage”, bem como seus melhores amigos deixaram de lhe ajudar: “A babá de Ryle (...) aparentemente não sabia que existe uma palavra como “uso errôneo” [misusage] e seus melhores amigos nunca disseram para ele que devemos ser realmente cuidadosos ao usar a palavra “sinônimo”. Os amigos de Ryle nada mais são do que a fonte (não reconhecida) dos usos que o filósofo pretende que sejam “o uso” canônico de uma expressão.
Eu disse acima que devemos ter atenção para com a descrição de Passmore, e citei o trecho em que ele diz que “podemos adotar um uso – nos conformar a ele – sem que sejamos capazes de descrevê-lo.” Ora, esse trecho é a paráfrase de Passmore para tudo o que Ryle escreveu sobre o processo de aprendizagem de uma língua. Para Passmore, esse processo consiste em “adotar um uso – nos conformar a ele – .” Todo o cuidado do autor em ao menos sugerir as linhas gerais de um programa de trabalho cuja premissa é o cuidado com a língua materna é reduzido a essa fórmula. Sendo assim, não devemos estranhar as piadas sobre a babá ou a forma como Passmore faz referência a uma outra instância de ensino-aprendizagem da língua materna: diante da afirmação de Ryle que nós aprendemos a conjugar verbos como “conhecer” na “dura escola da vida diária” o que ocorre a Passmore é afirmar que “não é muito justo nunca ir à escola e então se queixar do ensino.” E essa é a frase final do artigo de Passmore.
Na nota de rodapé a ironia acerca da aprendizagem com a babá continua: “It might be amusing, perhaps even instructive, to compare Ryle on ordinary language with W. D. Ross on prima facie duties. There is a close resemblance between Oxford deontology and Oxford linguisticism, not least in the assumption that duties, like verbal habits, are “learnt in the nursery,” and that what nurse has told us, goes for the rest of the world, too.”

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