1.11.05

83. As abstrações (II)

Ao menos um aluno parecia aceitar a versão popular sobre formação de conceitos, a saber, que os conceitos são formados a partir de um processo de abstração das características particulares das coisas. O tema foi desencadeado a partir de um comentário de Frege. Para criticar essas teorias, Gotlob Frege propôs um curioso exercício. Ele sugeriu que tentássemos produzir o conceito geral de “gato” como uma abstração. Nosso ponto de partida deve ser, obviamente, a contemplação de alguns gatos. Ele escreve:
“A falta de atenção é uma faculdade lógica muito poderosa; talvez isto permita explicar por que os professores costumam ser tão esquecidos. Suponhamos que há um gato negro e outro branco, sentados um junto ao outro, na nossa frente. Deixamos de prestar atenção à sua cor e se tornam incolores; mas ainda estão um junto ao outro. Deixamos de prestar atenção à sua postura e já não estão sentados (ainda que nem por isso tenham adotado outra postura), e ao mesmo tempo estão em algum lugar. Agora deixamos de prestar atenção à sua postura e cessam de ocupar um lugar; seguem sendo, porem, distintos. Talvez deste modo obtenhamos, a partir de cada um deles, o conceito geral gato. Mediante a aplicação continuada desse procedimento, obtemos de cada objeto um fantasma cada vez mais pálido.”
A crítica que Frege faz à doutrina que afirma que os conceitos surgem através de um processo que nos leva de certos dados a um conceito por meio de um processo de eliminação foi feita em diversos pontos de sua obra. A passagem acima está no texto em que Frege critica a filosofia da aritmética de Husserl. Ver o livro de Alberto Coffa, The Semantic Tradition from Kant to Carnap. To the Vienna Station . Cambridge University Press, 1991, p. 69.

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